Uma cena antiga de “Chiquititas” está fazendo barulho nas redes sociais, e a reação das pessoas diz muito mais sobre o que estamos vivendo hoje do que sobre a novela em si.
No clipe, que foi ao ar em um especial de Ano Novo, vemos os personagens participando de um ritual de umbanda na praia, fazendo oferendas para Iemanjá. Tudo acontece de maneira tranquila e respeitosa, sem nenhuma explicação chata.
Na época, essa cena passou quase despercebida. Crianças assistiam, os pais também, e a vida seguia sem polêmicas ou caça às bruxas nas redes sociais. Era só mais um pedacinho do mundo colorido que “Chiquititas” sempre apresentou, misturando fantasia, música e a rica cultura brasileira.
Mas agora, o que antes era considerado normal parece ter causado um verdadeiro choque. Muitas pessoas não se lembram da cena e outras ficam se perguntando se houve algum alvoroço na época. Alguns estão tentando transformar isso em um grande debate, como se a cena fosse uma bomba. Mas o silêncio daquela época revela algo importante: não havia a tal guerra cultural nem a necessidade de fazer todo ritual religioso um campo de batalha moral.
As crianças viam as flores, o mar e seguiam a história, sem rótulos ou discursos prontos. A umbanda era apresentada como uma parte do Brasil plural e diverso, como várias outras manifestações culturais que sempre deram as caras na televisão.
Além disso, a proposta da novela era reforçar valores como convivência e respeito às diferenças. Ninguém estava impondo religião a ninguém; aquela cena era uma simples e bela representação simbólica de celebração e renovação.
Hoje, as reações são diferentes. O que antes era parte do imaginário coletivo agora é analisado com uma lupa ideológica e cheia de preconceitos. O ritual que antes fazia parte da cultura geral agora causa aversão e questionamentos apressados.
Esse cenário reflete o aumento da intolerância religiosa, especialmente contra as religiões de matriz africana. O debate agora gira em torno de disputas de identidade, onde o diferente incomoda mais do que ensina.
O incômodo não vem da cena ou da novela, mas do presente – que parece menos disposto a conviver com o que não está dentro do padrão. A viralização dessa cena não é um erro do passado, mas um reflexo do agora: um tempo em que a diversidade assusta e a memória coletiva é reinterpretada de forma enviesada.
A pergunta permanece, um tanto desconfortável: será que avançamos como sociedade ou apenas trocamos a ingenuidade por preconceito disfarçado de opinião?